Promessa de reduzir a tarifa na Grande Aracaju chega em meio a problemas no transporte, uma licitação anulada e milhões de reais em subsídios públicos.
R$ 3 na catraca. R$ 7 de custo técnico. Quem paga os outros R$ 4?
Essa é a principal pergunta que envolve a promessa do candidato ao Governo de Sergipe, Valmir de Francisquinho, de reduzir de R$ 4,50 para R$ 3 a passagem do transporte coletivo da Grande Aracaju.
Segundo os números apresentados pela campanha, o sistema transporta cerca de 3,2 milhões de passageiros por mês e tem tarifa técnica de R$ 7. Hoje, a Prefeitura de Aracaju subsidia cerca de R$ 2,50 por passageiro, o equivalente a aproximadamente R$ 6,3 milhões mensais.
Com a tarifa de R$ 3, o subsídio passaria para R$ 4 por passageiro, elevando o aporte total para aproximadamente R$ 11,1 milhões por mês. A diferença seria de cerca de R$ 4,8 milhões mensais, ou R$ 57,6 milhões por ano, segundo a própria proposta.
Mas há outro número que precisa ser explicado. Em entrevista, Valmir também afirmou que pretende aportar R$ 100,3 milhões para reduzir a passagem.
Afinal, qual é a conta: R$ 57,6 milhões ou R$ 100,3 milhões por ano? E o que está incluído em cada valor?
É a partir dessa diferença que começa a discussão sobre a viabilidade da promessa.
O transporte ainda não tem uma solução definitiva
A promessa de R$ 3 chega a um sistema que continua sendo reformulado.
A atual prefeita de Aracaju, Emília Corrêa, passou a defender a anulação da licitação de 2024 e uma nova modelagem para o transporte. Em agosto de 2025, a Justiça manteve suspensa a licitação e a Prefeitura afirmou que a atual gestão havia identificado falhas no processo e acompanhado o posicionamento pela sua anulação.
Em dezembro de 2025, a Justiça de Sergipe anulou integralmente a licitação. Segundo a SMTT, foram apontadas falhas técnicas, ausência de informações essenciais, riscos de direcionamento e indícios de superfaturamento. A decisão atingiu também os contratos assinados com as empresas vencedoras.
O modelo previa 473 ônibus e R$ 126 milhões anuais em subsídios públicos, divididos entre Aracaju, Nossa Senhora do Socorro, São Cristóvão e Barra dos Coqueiros.
A licitação, portanto, não resultou no sistema que hoje opera na Grande Aracaju.
A atual gestão passou então a trabalhar em uma nova modelagem.
Um novo estudo custou quase R$ 2,8 milhões
Para construir essa nova solução, a Prefeitura contratou a FIPE por R$ 2.767.100 para elaborar o estudo de modelagem da concessão. O levantamento foi apresentado ao Consórcio do Transporte Metropolitano em novembro de 2025 e, em junho de 2026, as diretrizes do novo modelo foram apresentadas ao Ministério Público de Sergipe.
Segundo a Prefeitura, o estudo busca uma nova estrutura para o sistema, com critérios técnicos, melhoria do serviço e possibilidade de uma tarifa mais favorável ao usuário.
É justamente aí que aparece uma pergunta central para a campanha de Valmir:
O que os estudos da FIPE dizem sobre uma passagem de R$ 3?
Se a tarifa é financeiramente sustentável, qual é a modelagem que sustenta esse valor?
E, se os R$ 3 não estão previstos no estudo, qual estudo técnico sustenta a promessa?
A pergunta ganha peso porque a cidade já gastou quase R$ 2,8 milhões justamente para encontrar uma solução para o transporte.
R$ 3 para o passageiro, R$ 7 para a operação
A matemática da proposta é direta:
- Tarifa atual: R$ 4,50
- Tarifa técnica: R$ 7
- Subsídio atual: R$ 2,50 por passageiro
- Tarifa proposta: R$ 3
- Subsídio necessário: R$ 4 por passageiro
Na prática, o passageiro economizaria R$ 1,50, mas o subsídio por passageiro aumentaria também em R$ 1,50 — uma elevação de 60%.
O custo do transporte não desaparece.
Ele muda de pagador.
Hoje, parte da conta é coberta pela Prefeitura. Pela proposta apresentada, o Governo do Estado assumiria a diferença adicional.
Se forem realmente R$ 4,8 milhões adicionais por mês, seriam R$ 57,6 milhões por ano. Mantido esse valor durante quatro anos, sem considerar reajustes ou mudanças na demanda, a conta chegaria a R$ 230,4 milhões.
Quem vai pagar?
Essa é uma das principais questões ainda abertas.
O transporte é metropolitano e envolve Aracaju, Nossa Senhora do Socorro, São Cristóvão, Barra dos Coqueiros e o Governo de Sergipe.
A pergunta, portanto, é objetiva:
Aracaju continuará pagando os atuais R$ 6,3 milhões mensais?
O Estado pagará apenas os R$ 4,8 milhões adicionais?
Os demais municípios também participarão?
Ou o Governo de Sergipe assumirá sozinho a nova despesa?
Essa definição é importante porque o usuário de um município pode utilizar linhas que circulam por outro. O financiamento precisa acompanhar essa realidade metropolitana.
E quanto as empresas vão receber?
Outra questão que precisa estar na planilha é a remuneração das empresas.
Se a tarifa técnica continuar em R$ 7 e o usuário pagar R$ 3, as operadoras precisarão receber os outros R$ 4 por passageiro.
Isso não significa que os R$ 4 sejam lucro.
Mas o cidadão precisa saber quanto cada empresa receberá em subsídios, quantos passageiros transportará, qual quilometragem irá operar e quais metas de qualidade terá de cumprir.
Também é necessário saber quais empresas permanecerão no sistema.
A antiga licitação previa novas concessionárias, mas foi anulada. Enquanto uma nova concessão não é concluída, a operação continua sendo modificada. Em setembro de 2026, por exemplo, a SMTT retirou 22 ônibus da Viação Modelo e transferiu seis linhas para a empresa Boa Vista.
A Prefeitura também anunciou a chegada de 110 novos ônibus, sendo 67 zero-quilômetro, e informou redução da idade média da frota de 7,65 para 5,68 anos.
Ou seja: o sistema ainda está sendo reorganizado enquanto a nova concessão é construída.
E os ônibus que já são patrimônio público?
Aracaju também possui ônibus elétricos adquiridos com recursos públicos. A questão é como esses veículos serão tratados no novo modelo.
Se uma nova empresa assumir a operação, quem continuará responsável pelos ônibus públicos?
Quem fará a manutenção?
As empresas continuarão utilizando esses veículos?
E o que acontecerá se uma concessionária deixar o sistema?
São questões contratuais, mas também são questões de dinheiro público.
Passagem mais barata resolve o problema?
Para quem usa ônibus todos os dias, a redução de R$ 4,50 para R$ 3 representa 33,3% a menos na passagem.
Em 22 dias úteis, com duas viagens diárias, a economia seria de aproximadamente R$ 66 por mês.
É um benefício concreto.
Mas existe outra pergunta:
De que adianta pagar menos se o passageiro continuar enfrentando atrasos, superlotação, quebras e problemas de manutenção?
A tarifa é apenas uma parte da discussão.
O sistema precisa entregar também regularidade, qualidade, frota adequada, fiscalização e segurança.
E a própria Prefeitura vem ampliando o subsídio para manter a tarifa atual em R$ 4,50, enquanto promove mudanças na operação e na frota.
R$ 57,6 milhões em perspectiva
Para entender o tamanho da promessa, basta comparar os números.
A LOA de Aracaju para 2026 prevê R$ 936,4 milhões para a Saúde e R$ 766,5 milhões para a Educação.
Os R$ 57,6 milhões anuais projetados como custo adicional para a redução da tarifa equivaleriam, apenas como comparação de escala, a aproximadamente:
- 6,2% do orçamento anual da Saúde;
- 7,5% do orçamento anual da Educação.
Isso não significa que o dinheiro seria retirado dessas áreas. São orçamentos e responsabilidades distintas.
A comparação serve apenas para mostrar que R$ 57,6 milhões por ano não são uma despesa pequena e exigem uma fonte de financiamento claramente identificada.
A promessa precisa sobreviver à planilha
A proposta de Valmir é simples de entender: passagem a R$ 3.
O que ainda precisa ser explicado é a parte menos eleitoral da promessa:
- quanto vai custar;
- quem vai pagar;
- por quanto tempo;
- quais empresas receberão;
- quais municípios participarão;
- qual será o contrato;
- quais metas serão cobradas;
- e qual estudo técnico sustenta a tarifa.
A Grande Aracaju já teve uma concessão projetada com R$ 126 milhões anuais em subsídios, posteriormente anulada pela Justiça. Agora existe uma nova modelagem, construída com estudos da FIPE que custaram R$ 2,767 milhões.
Enquanto isso, o poder público continua subsidiando o sistema atual.
Por isso, a pergunta desta reportagem não é se o usuário gostaria de pagar R$ 3.
É quanto essa promessa custará ao contribuinte.
O que Valmir precisa responder
- A conta anual é de R$ 57,6 milhões ou R$ 100,3 milhões?
- Qual será a fonte permanente dos recursos?
- Quanto cada município da Grande Aracaju pagará?
- Quanto cada empresa receberá em subsídios?
- Quais empresas permanecerão no sistema?
- Quando será concluída a nova licitação?
- O que exatamente os estudos da FIPE dizem sobre a tarifa de R$ 3?
- Quais metas de qualidade serão exigidas das empresas?
- Como serão tratados os ônibus que pertencem ao poder público?
- Quem cobrirá a diferença caso a arrecadação fique abaixo da previsão?
R$ 3 na catraca. A pergunta é quanto no orçamento.
A redução pode representar economia para quem depende do ônibus.
Mas, se a tarifa técnica continuar em R$ 7, alguém precisará pagar os outros R$ 4.
E esse dinheiro, segundo a proposta, virá do poder público.
A população tem o direito de saber quanto será gasto, de onde virá o dinheiro, quem receberá e qual serviço será entregue em troca.
Porque a passagem pode custar R$ 3 para o usuário.
Mas a promessa só estará completamente explicada quando estiver claro quanto ela custará para todos os cidadãos.
Fontes: Prefeitura de Aracaju, SMTT, Consórcio do Transporte Metropolitano, Tribunal de Contas do Estado de Sergipe, Câmara Municipal de Aracaju e informações divulgadas pela campanha de Valmir de Francisquinho. Os valores e projeções atribuídos à campanha são apresentados como declarações da própria campanha, não como projeções independentes.


